Escolas, exames, currículos e outras dificuldades…

Nos últimos tempos tem surgido algum entusiasmo e um optimismo acentuado com a introdução das tecnologias nas actividades escolares e em particular nas práticas lectivas. As escolas têm vindo a ser equipadas com materiais e equipamentos tecnológicos capazes de fornecer aos professores as ferramentas necessárias para alterarem as suas práticas lectivas e criarem ambientes digitais propícios à imersão dos alunos nas aprendizagens, aproveitando, desta forma, o ambiente de comunicação típico destes “nativos digitais”. A escrita revela um tom crítico? Não! Pelo menos não há essa intenção! Antes pelo contrário. Eu sou dos que acreditam que as tecnologias têm de estar obrigatoriamente na sala de aula, como estão em quase todos os ambientes de comunicação destes jovens. O que me leva a escrever estas linhas são algumas reflexões que resultam da utilização das tecnologias na minha prática lectiva.

Para enquadrar essas reflexões gostaria de fazer uma pequena retrospectiva do que tem sido a minha relação com estas “máquinas”. Devo dizer que só tardiamente, já na universidade, iniciei uma relação próxima com elas. Embora tardia, foi uma relação que começou ténue mas que se foi tornando cada vez mais forte até esta “quase dependência”. Profissionalmente, essa apetência foi-se manifestando na vontade de me manter informado sobre as novidades tecnológicas e principalmente na possibilidade de as utilizar com objectivos pedagógicos. Hoje, olhando, criticamente, um pouco para trás, considero que a maior parte das estratégias que defini e segui constituem elementos isolados, capaz de acrescentar valor à leccionação, mas que, se somados, não constituem uma alteração ao modelo de leccionação. Para tentar esclarecer este aspecto vou referir-me a algumas situações em concreto. Considero que o suporte visual é fundamental numa disciplina como Biologia (muitos dos objectos de estudo são invisíveis à vista desarmada, os mecanismos complexos são representados esquematicamente, etc…) e, por isso, procuro ter sempre esse suporte. No início, resolvia esse problema utilizando um (agora) banal scanner, digitalizando imagens e organizando-as num acetato e… voilá: o suporte visual à minha explicação ou à actividade. Algum tempo passou e começam a surgir os primeiros projectores multimédia nas escolas. O salto é o óbvio: do acetato para o PowerPoint; da imagem estática para a animação; do filme na TV para o filme na tela branca… E o modelo mudou? Pouco ou nada! Outras mudanças foram ocorrendo: da pesquisa bibliográfica para a pesquisa na web; do jogo didáctico em suporte papel para o suporte digital; dos relatórios e trabalhos manuscritos aos relatórios e trabalhos digitais; da divulgação de notícias no quadro de cortiça à divulgação na Web, do repositório de documentos na reprografia ao repositório no Moodle, etc, etc… E o modelo, mudou? Pouco ou nada! As eventuais mudanças estarão mais relacionadas com a experiência adquirida e com a alteração consciente, do que como resultado da utilização das tecnologias.

E o título do post!? A que se deve?! Só mais um pouquinho e já lá chego. Antes tenho de tentar explicar aquilo que na minha opinião deverá ser o fito essencial de um plano tecnológico na educação e como é que as tecnologias poderão valorizar as actividades de aprendizagem. Sem dúvida influenciado pela frequência do mestrado Multimédia em Educação e, principalmente, pelas cadeiras do Carlos Santos, hoje, a minha concepção sobre a utilização das tecnologias educativas é diferente. As tecnologias não devem servir apenas de suporte à leccionação. O ambiente digital deverá ser, ele próprio, o meio da própria actividade de aprendizagem. A tecnologia na sala de aula não deve, nem pode estar só do lado do professor. O efeito de motivação que as novidades tecnológicas podem ter nas aprendizagens diluem-se rapidamente, se estas não estiverem do lado correcto: o do aluno. Mas só isso não é suficiente. É necessário que a comunicação se faça também nesse meio e que se “traga” para a aula todas as interacções que aí são possíveis e que de alguma forma podem contribuir para alargar uma comunidade que poderá ser tanto mais efectiva nas aprendizagens individuais, quanto maior for a sua dimensão. Só assim pode ocorrer a tal “imersão” a que me referi acima. Mas para esta ocorrer é necessário que as actividades o permitam, ou melhor, o promovam. Isto implica, de alguma forma, uma alteração nos modelos de ensino. Ora cá estou eu a chegar ao busílis da questão.

Quando, este ano, tenho procurado definir estratégias com esse objectivo, os condicionalismos começam a estreitá-las, por vezes tanto, que me vejo forçado a abandoná-las. Estratégias deste género necessitam de currículos mais flexíveis que possam permitir a adaptação a projectos parciais e que não sejam elementos causadores de pressão pela necessidade de seguir escrupulosamente programas curriculares “universais” e pela existência de exames nacionais e uma forma de avaliação desajustada. Também a organização das escolas, com salas “desenhadas” para o ensino tradicional, sem espaços alternativos, com horários e rotinas que constrangem a adopção de estratégias, contribui para que considere que aquilo que preconizo como modelo de ensino-aprendizagem ainda esteja a alguma distância de ser atingido tendo em conta aquilo que constitui a minha prática lectiva actual.

Parece-me importante que, a acompanhar esta salutar entrada das ferramentas tecnológicas nas escolas, façamos uma reflexão sobre o que, objectivamente, é necessário fazer para que elas sirvam para melhorar as práticas lectivas e concomitantemente os resultados de aprendizagens que devem, fundamentalmente, preparar cidadãos para o sucesso nesta sociedade digital.

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